fevereiro 29, 2004

Amor, Intuição e Aprendizagem

Cena 1 - Café onde vou quase todos os dias beber a bica. Uma jovem mãe com o filho, um puto de uns quatro ou cinco anos, bastante irrequieto. O puto corre pelo café, empoleira-se nas mesas, sobe e desce das cadeiras, entorna o leite, suja-se com os bolos e guloseimas, quer isto e aquilo, grita, faz birras, atira o queque para o chão porque não era aquele o bolo que desejava...
A mãe repreende o puto com palmadas nas mãos, açoites no rabo, alguns abanões. O puto chora. A mãe pega-lhe ao colo e mima-o. Compra-lhe o bolo com creme que o puto deseja. O puto suja-se com o creme, põe-se de pé em cima da cadeira, cai e choraminga. A mãe segura-o por um braço e repete-lhe: “És mau, muito mau, não gosto de ti, não gosto nada de ti...” O puto chora alto e tenta bater na mãe. A mãe pega-lhe de novo ao colo e dá-lhe muitos beijinhos.

Cena 2 – Um escritório. Entra um pai com uma filha de uns três anos. Enquanto o pai conversa e trata do assunto que lá o levou, a miúda parte á descoberta do território. Mexe nos computadores, calculadoras e outras máquinas, carrega em todos os botões, parte alguns, desarruma agrafadores, papeis e canetas, risca paredes. O pai olha-a benevolente, sorri e limita-se a repetir um “não mexas aí” sem convicção. Uma empregada do escritório tenta “distrair” a miúda e leva-a a uma sala lá dentro para lhe dar um copo de água. A miúda regressa com uma colher na mão, com a qual bate em tudo e em todos, muito divertida. O pai sorri, encantado com as gracinhas da menina e repete um “tá quietinha” sem convicção.
À despedida, a miúda recusa-se a devolver a colher, gritando e chorando. O pai, complacente, diz apenas: “Deixem lá ela levar... É só uma colher, depois eu devolvo.” A miúda sai, vitoriosa, ao colo do pai, a bater-lhe nas costas e na cabeça com a colher.

Não são cenas de nenhum filme. São cenas da vida real, a que eu assisti. Lembrei-me delas – e de várias outras que ocupariam muito tempo e espaço a contar – a propósito de uma notícia que tinha como título «Não basta intuição para educar os filhos».

De acordo com a referida notícia, relativa á realização do Congresso «Pais no Século XXI - um desafio a vencer», realizado em Lisboa, defendeu-se a criação de «escolas de pais» nas escolas dos filhos para fomentar a educação parental no País, aliás já consagrada na lei, mas sem ainda ter passado de intenção no papel.
Isto porque, de acordo com Manuela Neto, coordenadora nacional para os assuntos de família, «nos dias de hoje não basta a intuição para educar um filho». Muitos pais, apesar de todo o amor que têm pelos filhos e desejando o melhor para eles, e ainda que cheios de boa-vontade, educam-nos de uma forma caótica, por motivos diversos, balançando entre excesso de autoritarismo e excesso de permissividade.
Uma das razões muitas vezes apontada é a falta de tempo da família, mas segundo Daniel Sampaio, presente no referido Congresso, «o tempo é um falso problema. O que é importante é a qualidade do relacionamento».
As referidas aulas de educação parental consistem em reuniões de grupos de pais que, juntamente com técnicos e pedagogos da área, discutem e partilham as suas experiências.

Publicado por vmar em fevereiro 29, 2004 09:54 PM
Comentários

Pois é! Também já assisti a cenas similares e cada vez que as presencio fico fulo, com vontade de dar umas palmadas valentes no rabinho dos paizinhos das pestezinhas. Mais um sinal preocupante dos tempos que correm, em que tudo é mais importante que a conduta humana.

Um abração do
Zecatelhado

Afixado por: Zecatelhado em fevereiro 29, 2004 10:09 PM

Digo muitas vezes que há um grave problema actualmente: educar os pais!!!

Afixado por: M. em março 1, 2004 12:41 AM

Não basta intuição?
Desculpa, mas não concordo... O que falta hoje é tempo, paciência e intuição...
Parece-me que há pedagogês a mais e princípios a menos.

um abraço,
Francisco Nunes

P.S. Devo dizer que não usos botas altas nem chicote... só por causa das bocas...

Afixado por: Planície Heróica em março 1, 2004 12:56 AM

Seguramente só a intuição não chega mas ajuda muito. Não existem manuais de instruções mas há muita coisa coisa para lêr a cerca do tema, mais uma vez tem que ser a intuição a ajudar a fazer uma triagem do que pode ou não ser útil na nossa situação particular. Claro que uma grande dose de paciência, disponibilidade e disciplina dão uma boa ajuda.

Afixado por: amnésia em março 1, 2004 10:06 AM

Bem lá vou ter que lembrar, normalmente essa falta de intuição para saber educar os filhos tem a ver com o erro interpretativo de alguns pais nos métodos de criar um filho. Uns pensam que dar-lhes uma nalgada na devida altura é violentá-los e portanto não é moderno. Como com
as palavras não os conseguem moldar em relação às
birras e outras atitudes habituais nas crianças elas vão cada vez mais aumentando a sua rebeldia
chegando até, como já assisti por diversas vezes
crianças a pontapearem e esbofetearem os pais em
lugares públicos como por exemplo em grandes surperfícies, quadro esse, de que fujo para não
me incomodar. Agora imagine-se essa criancinha educada, ou melhor, mal educada, que vai para escola habituada a não ser contrariada, qual vai
ser o seu comportamento. Depois admiram-se que alguns professores cheguem a perder a cabeça. Mas este tema tem muita pano para mangas.

Afixado por: congeminações em março 1, 2004 07:13 PM

Concordo com o congeminações:
Uma palmada na hora certa, no sítio certo... sem habituação...

Um abraço,
francisco nunes

Afixado por: Planície Heróica em março 1, 2004 08:28 PM

Doi-nos tanto as palmas dadas nos rabiosques com lhes doi a eles, mas volta não volta lá vai mais uma...tem de ser. Se se repreende uma criança na rua automaticamente as pessoas se viram e dizem coitadinhas das crianças, o que só vai envergonhar os pais e dar força às birras das mesmas.

Uma vez disse a minha filha que não lhe comprava um briquedo porque não tinha dinheiro, fez uma fita tremenda em pleno hipermercado, toda a gente se virava, até que lhe disse ou parás com a fita ou vamos imediatamente embora e ainda levas uma palmada, logo uma senhora faz um ar de reprovação, ora por amor de Deus que devia fazer, toma filha a mãe vai roubar para te fazer todas as vontadinhas...a própria sociedade não ajuda, às vezes estamos a repreender os filhos e sentimo-nos tão pequeninos com os comentários alheios que nem dá vontade de sair mais à rua...e se eles sabem fazer fitas, chiça penico!

Afixado por: querolasaber em março 1, 2004 10:32 PM